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Big Little Lies: uma minissérie sobre mulheres que (sobre)vivem juntas

Big Little Lies: uma minissérie sobre mulheres que (sobre)vivem juntas

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Big Little Lies é uma minissérie produzida pela HBO e estreada em fevereiro de 2017 que conta com um elenco de dar inveja a muita obra consagrada: Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Laura Dern, Shailene Woodley e Zoë Kravitz. Mas não é só de “rostinhos bonitos” que a narrativa de apenas sete episódios vive: pode colocar na conta oito Emmys, a maior premiação da TV norte-americana, em 2017 nas categorias de Melhor atriz em uma minissérie ou filme (Nicole Kidman); Melhor ator em uma minissérie ou filme (Alexander Skarsgard); Melhor atriz coadjuvante em uma minissérie ou filme (Laura Dern); Melhor direção em uma minissérie ou filme (Jean-Marc Vallée); Melhor elenco em uma minissérie ou filme; Melhor minissérie; Melhor figurino contemporâneo; Melhor supervisão musical.

Ufa. Baseada no livro escrito por Liane Moriarty, “Pequenas Grande Mentiras”, a narrativa gira em torno da investigação de uma morte. O que há de novo nisso? O fato de não sabermos nem quem matou, nem quem morreu. A história é primordialmente focada na vida de três mães que se aproximam quando seus filhos passam a estudar juntos no colégio. Até então, elas levam vidas aparentemente perfeitas, mas os acontecimentos que se desenrolam levam as três a extremos que conectam suas vidas de uma maneira inesperada.

Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley) vivem situações conflituosas e a partir delas desenvolvem uma forte amizade. Muitos dos pontos que ajudam essa amizade a se desenvolver tem a ver com outras duas personagens que têm menor destaque, mas que são tão importantes quanto para a dinâmica da narrativa, Bonnie (Zoë Kravitz) e Renata (Laura Dern.

A trama é construída intercalando flashbacks e depoimentos de pessoas que cercam as cinco personagens e a cada novo episódio aquela pessoa que julgávamos ser apenas mais um gancho acaba ganhando camadas encorpadas de desenvolvimentos narrativos. Os espectadores só têm a ganhar ao assistirem uma obra em que cada personagem que aparece, do mais importante ao menos, está ali por um propósito bem definido e construído.

Nada é raso em Big Little Lies. Apropriando-se de temáticas densas como a violência doméstica, o estupro, o bullying, a maternidade, traumas e rivalidades, a minissérie evidencia o que de mais tóxico pode haver nas relações humanas ao mesmo tempo em que deixa claro o contrário: vemos relações de amizade surgirem em meio ao caos e dessas amizades somos levados às mais diversas formas de apoio e suporte mútuo, num exemplar perfeito do conceito de sororidade aplicado à prática.

Embora trabalhe temáticas diversas, Big Little Lies não se perde em plots desnecessários e entrega uma verdadeira obra prima muito bem conduzida e incrivelmente encenada.

Violência doméstica: quando o inimigo mora em casa

Num país como o Brasil em que 4.4 milhões de mulheres sofrem agressões por ano, sendo desses, 61% dos casos cometidos por companheiros ou ex-companheiros — ou seja, caracteriza-se violência doméstica — uma narrativa como a de Big Little Lies deveria ser cada vez mais assistida. Não por necessariamente  trazer uma solução ao caso ou por contar com algum final feliz (existe final realmente feliz para marcas que perduram para sempre?), mas por trazer à tona uma temática tão complicada e fácil de ser fetichizada em sua representação.

Se a situação é complexa, sua representação precisa ser igualmente complexa e Big Little Lies não foge da raia, muito pelo contrário: desperta uma angústia quase paralisante em quem acompanha a história do casal Celeste e Perry.

Usar a história de uma mulher que tem uma vida aparentemente perfeita com dinheiro, marido, mansão, belos filhos e bons carros para abordar a temática da violência doméstica é uma escolha importante por duas razões:

1) mostrar que as aparências são apenas aparências: ninguém sabe o que se passa na vida do outro até, de fato, deparar-se profundamente com a vida do outro e

2) mostrar que violência doméstica não tem classe social.

A violência doméstica neste caso é retratada sem perder de vista suas inúmeras nuances que por vezes são esquecidos nos imaginários e é aí que Big Little Lies ganha ainda mais solidez narrativa. Quando representa sem fetichizar, a minissérie possibilita com que a própria visão sobre esse tipo específico de violência possa ser revisitado. É mais eficaz que percebamos de uma vez por todas que para além de qualquer senso comum, quando o assunto é violência doméstica apenas a dicotomia “homem mau x mulher que na consegue se livrar” não necessariamente dá conta.

Há muito mais para considerar do que apenas “largar o cara” ou não.  É preciso compreender que em sua maioria esses atos são cometidos por pessoas com quem há uma relação de dependência emocional, financeira e psicológica. Esses atos violentos  atingem as mais profundas esferas das vidas de mulheres ao redor do mundo.

Compreendendo a importância de se abordar esse tema na televisão, Nicole Kidman, ao receber o Emmy por interpretar Celeste ressaltou: “Na nossa profissão, de vez em quando, você tem a chance de passar uma mensagem importante para o público”, disse Nicole. “Nós jogamos luz sobre o abuso doméstico. É uma doença complicada e insidiosa que existe muito mais do que nós pensamos”, continuou. “É uma doença cheia de vergonha e segredos, e por me darem esse prêmio vocês a colocaram ainda mais em evidência. Então, obrigada, obrigada e obrigada. Eu me curvo a vocês”, completou a atriz.

Elas por elas: a importância da sororidade

Se Big Little Lies traz à tona temáticas que angustiam, traz também uma que acalenta: a amizade entre suas personagens. Logo nos primeiros momentos dá para perceber que a minissérie guarda um lugar especial para a amizade feminina quando mostra Madeline e Celeste apoiando Jane, mãe novata no bairro, primeiro com os problemas escolares que seu filho vem enfrentando e posteriormente com seus outros problemas pessoais.

Todas as cinco personagens principais passam por processos dolorosos em suas experiências particulares e é na busca pela resolução de muitos desses problemas (ou, ao menos, uma melhor forma de lidar com eles) que seus arcos são construídos. Nada pode ser mais acalentador quando passamos por situações dolorosas do que saber que não estamos sozinhas.

Com a minissérie a gente aprende que não é possível sentir a dor do outro, mas cada uma leva a sua própria dor, e, por isso, se compadecer com a dor do outro fica mais fácil. Em pouco tempo as personagens percebem que vão mais longe juntas e algumas cenas em especial deixam isso claro de uma forma comovente.

Assistir Big Little Lies até o fim é ver como, genuinamente, mulheres podem e devem ser pontos de apoios umas para as outras e como essas amizades podem ser profundamente importantes no auxílio para romper com padrões intoxicantes dos quais muitas de nós não conseguimos nos livrar sozinhas.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

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