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Entre assassinatos e política, American Horror Story: Cult é sobre o medo real

Entre assassinatos e política, American Horror Story: Cult é sobre o medo real

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American Horror Story estreou sua sétima temporada, Cult, há pouco mais de um mês e precisamos admitir que essa está sendo uma das melhores temporadas já feitas na série!

Ao contrário das temporadas anteriores que mostravam mais o sobrenatural, Cult foge disso. E por mais absurdos que sejam os eventos da série, se olharmos para a nossa realidade, podemos nos deparar com muitos dos personagens e acontecimentos da temporada.

A narrativa começa exatamente na eleição de Donald Trump. Enquanto Ally, personagem de Sarah Paulson, que é lésbica, chora descontroladamente; Kai, personagem de Evan Peters comemora como se fosse a final de um campeonato. Aos poucos vamos conhecendo as histórias desses dois personagens centrais e também conhecemos os membros do culto liderado por Kai, que dá nome à temporada e tem a missão de causar terror à sociedade com a intenção de ganhar poder. Algo muito parecido com o que as facções criminosas e partidos políticos fazem com a gente na vida real, né?

Kai é um jovem com discursos recheados de frases de efeito e informações “chocantes” sobre a sociedade atual, sobre a mídia, sobre “esquerdistas” e política em geral. Sua ambição é virar conselheiro da cidade e assim ir subindo até a presidência do país. Afinal, se Trump pode, quem não pode?

Se olharmos o Twitter, os textões do Facebook e os vídeos de alguns youtubers não será difícil encontrar milhares de personagens idênticos a Kai. Aparentemente, ele é aquele moleque que não sabe debater sem ameaçar, que retirou os dados jornalísticos da própria cabeça e incita a violência nos seus comentários. Porém, por mais idiota que esse Kai – e aqui eu falo de todos os Kai’s da vida – possa parecer, ele é mais perigoso do que pensamos e com o tempo isso fica mais claro.

Recentemente li um texto sobre como os nerds do 4chan ajudaram na eleição do Donald Trump e na formação da nova “direita” dos EUA, que me fez pensar nas eleições do ano que vem aqui no Brasil. Até quando vamos ignorar que o Trump brasileiro tem força demais entre os jovens e que esses jovens podem ajuda-lo a conseguir mais seguidores e eleitores até o fim do ano que vem? Zombar dos pequenos ídolos do “mito” nas redes sociais nos torna tão infantis quanto e até um pouco mais ingênuos.

Em uma das cenas do primeiro episódio da temporada, Kai é humilhado, visto como um sonhador infantil pelo conselho da cidade e promete vingança, afirmando que não há nada mais perigoso no mundo do que um homem humilhado. Quantos casos de feminicídio não foram motivados por homens que se sentiram humilhados? As pessoas que se revoltam contra o sistema de cotas não se sentem humilhadas quando não passam no vestibular? Por que os homens do Brasil se revoltam tanto contra a comunidade gay enquanto fazem parte do país que mais busca pornografia com transexuais na internet? Não seria por medo da humilhação de assumir desejar o que deveria odiar? Nosso sistema desigual não leva muitos homens a roubar por medo da humilhação de não ter um bom tênis ou o melhor celular?

O homem humilhado se revolta contra aqueles que conseguem o que ele não tem ou não é. E essa revolta começa como uma piadinha aparentemente inofensiva e termina em um poderoso discurso de ódio. Trump parecia ser apenas uma piada: um empresário milionário, ex-apresentador de reality show, citando dados que ele mesmo criou e planejando construir um muro pago pelo país vizinho. Mas a piada venceu as eleições e hoje é o presidente de um dos países mais influentes do mundo.

Enquanto isso no Brasil, vivemos um tempo em que piadas com movimentos liderados por meninos mimados, pastores evangélicos e subcelebridades de talento questionável são aplaudidos e apoiados por milhares de pessoas que acreditam que homossexualidade é doença, museus apoiam pedofilia, professores são doutrinadores de esquerda e direitos humanos protegem vagabundos. E que todo esse “mal” deve ser combatido em nome dos valores da família.

De Charles Manson a Trump, passando por Adolf Hitler, homens violentos, mas com um discurso convincente foram capazes de mover muitas pessoas a fazerem exatamente o que eles queriam, seja matar uma mulher grávida ou começar uma guerra mundial. E como eles conseguiram isso? Pelo discurso do medo. O medo é o que move as pessoas. Charles Manson conseguiu seguidores que tinham medo das “prisões mentais” e precisavam se libertar do que a sociedade pregava; Trump e Hitler convenceram um país de que o fascismo era a salvação da nação; e aqui, programas policiais nos mostram que a violência urbana é horrível e devemos apoiar pena de morte, nos cercar de alarmes e grades e apoiar a “bancada da bala” – sim existe essa bancada no Congresso, que apoia o porte de armas no Brasil como medida de segurança (dá super certo, gente, é só olhar os Estados Unidos e os casos recorrentes de atiradores insanos, sucesso -sqn).

O que Cult quer nos mostrar é que a maior história de horror americana – e mundial – está acontecendo hoje e na vida real. Os discursos de ódio, a busca insana por valores da família tradicional, o nacionalismo radical, o desprezo pelos direitos humanos e minorias, o medo imposto pela mídia e a volta do fascismo como opção para manter a ordem e a segurança de um país são sinais alarmantes de um mundo doente e completamente alienado.

É claro que Cult é uma obra de ficção com diversas cenas bizarras, mas não devemos fingir que aqui fora está tudo certo. Entre teorias conspiratórias, cultos secretos e garotinhos frustrados disparando sua raiva, o mundo tem caminhado a passos apressados para um colapso de violência.

American Horror Story: Cult, vai ao no FX e aqui no Séries Por Elas você confere a resenha de todos os episódios.

Leticia Pataquine De 93, pisciana, feminista, apaixonada por cachorros, séries e histórias de terror. Também amo escrever e conversar por memes, aliás, eu já falei que sou muito louca sim, mas de amor?

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