AVISO: Este texto contém SPOILERS!

Já no piloto, a série da Netflix aguça o espectador habituado a clássicas histórias policiais (sendo elas ficção ou realidade) de perseguições a serial killers, como a também recente (e aclamada) Mindhunter, ao mesmo tempo que recheia, com seus atores franceses, a lista de bons conteúdo fora dos eixos norte-americanos e britânicos da televisão, alternativas de entretenimento que a catalã Merlí e a alemã Dark apresentaram ao público brasileiro. Mas A Louva-a-deus é uma série consistente, que traz, em seis episódios, suas próprias assinaturas de qualidade, especialmente no roteiro, que tem como protagonista, uma mulher.

Isso mesmo. Jeanne Deber, interpretada lindamente por Carole Bouquet, é a assassina em série que da nome à série. Na trama, ela ficou conhecida por confessar autoria de oito homicídios brutais. Todas as suas vítimas eram homens e não à toa. A criminosa acredita ter feito um favor a sociedade ao eliminar agressores de mulheres.

Após 25 anos de sua prisão, os crimes de Jeanne voltam a se repetir quando um imitador – ou copycat, como os viciados em séries policiais devem estar familiarizados – começa a chamar a atenção da polícia e da imprensa por reproduzir o trabalho da serial killer, incluindo todos os detalhes sórdidos em suas matanças. Esta é a deixa de Jeanne para negociar uma breve estadia fora da prisão. Ela daria a ajuda tão necessária na investigação do imitador, com a condição de estar fora do presídio e comunicar-se com a polícia por meio de Damien Carrot, um policial parisiense sem experiência em investigações de homicídio, mas com uma característica única: é filho da Louva-a-deus.

A investigação se segue em um roteiro firme, nos poupando de jargões e figuras clássicas dos roteiros de séries policiais norte-americanas. Os conflitos internos e familiares de Damien começam a afetar a investigação, e como não afetaria, sendo ele filho da notória assassina que inspirava as novas mortes? Um outro admirador da Louva-a-deus aparece para mostrar o tamanho da influência dela. A polícia parisiense fica balançada com a chegada de Damien na investigação, tornando Szofia Kovacs seu confronto direto, responsável por expor a relação do policial herói com a mãe assassina. Esse ponto, aliás, poderia ter sido melhor explorado, ao invés de colocar Damien e o chefe da corporação, Dominique Ferracci, sempre aos berros irracionais contra ela.

Enquanto tudo isso se desenrola, conhecemos a assassina aos poucos, mesmo sem saber. Virginie Delorme esteve lá o tempo todo, enganando quem acreditou se tratar de uma participação pequena na trama, que logo acabaria como vítima indefesa. Depois de muita perseguição e investigação, a história se desenrola para mostrar o que há por trás da mente das duas assassinas.

Se aprendemos com Mindhunter que serial killers são, em maioria, homens misóginos, frustrados pelas criações ou abandonos que tiveram de suas mães ou relações com outras mulheres, que crescem para matar outras mulheres, os roteiristas não tiveram medo de mostrar que Jeanne e sua imitadora, que revela-se ser uma mulher trans, representam exatamente o oposto disso. Mas isso não significa que são apenas “versões femininas” de vilões de outras histórias.

Jeanne, por exemplo, tem sua própria forma de agir, sua própria inteligência peculiar, sua própria casca de frieza para segurar sentimentos, seus próprios prazeres como serial killer. Inicialmente, temi afirmar tudo isso sobre a personagem, me senti estranha por gostar de Jeanne. Ela me fez pensar que, como feminista, eu não devia achar a punição por morte para abusadores corretas, pois não é. Mas naquela história ela só estava cumprindo o dever da maioria dos serial killers da ficção, de nos fazer refletir sobre a efetividade da justiça, nesse caso, em prol das mulheres que são vítimas. Não só assistimos oito temporadas de Dexter torcendo por ele, como criticamos os momentos em que ele mostrou vulnerabilidades, em que não foi “frio e assassino” suficiente. Então por que tanto estranhamento com Jeanne? É porque não estamos acostumados a ver uma mulher neste papel.

Assim como Dexter, a infância de Jeanne foi fundamental na criação do seu instinto de matar. Abusada pelo próprio pai, viu-o matar a mãe violentamente diante de seus olhos. Viu-o também envelhecer impune, como muitos homens. Mas, sendo uma mulher, os traumas de Jeanne não ficaram no passado e, na vida adulta, a violência sofrida por parte do próprio marido desencadeou sua fúria, seus planos de punição contra os homens.

Pode parecer até incômodo que toda a motivação dessa nova fase de Jeanne, ajudando a polícia a prender uma assassina, possa ser dois homens: a reaproximação com seu filho e o desejo de vingança de seu pai, mas um olhar mais profundo demonstra que a série não é somente sobre isso. Não podemos esquecer de Virginie.

Tendo sido ela mesma “salva” por Jeanne de um pai agressor, foi fácil para a imitadora se ver na assassina, ver a necessidade de reproduzir a “luta por justiça” que ela iniciou, mas não sem levar seus próprios sofrimentos com transfobia para a discussão. Assim a série me fez notar também que não estamos verdadeiramente acostumadas a ver histórias sobre admiração entre mulheres como centro. É muito fácil – embora desafiador para o mercado – mudar a narrativa de um conto de fadas e focar no amor entre duas mulheres. Difícil é mostrar uma relação abusiva, de obsessão, entre uma mulher assassina e sua imitadora. São outros nuances de um tipo de admiração que poderia existir, talvez de maneiras menos extremas, mas, se dependermos somente de histórias fabricada em Hollywood, não veríamos.