Há muitas novidades grotescas na Netflix. Para quem ama uma coisa estranha como eu, dá pra se sentir em casa e dizer como Mortícia diria: “Preto é uma cor adorável”. No mesmo clima, o serviço de streaming disponibilizou recentemente os episódios da série A Bizarra Confeitaria de Christine McConnell (original: The Curious Creations of Christine McConnell). McConnell já vinha fazendo sucesso em seu Instagram com suas criações lindas e fúnebres. A Netflix não é boba e aproveitou para lançar uma série com a confeiteira/atriz/designer como protagonista.

Honestamente, o show possui uma linguagem diferente de tudo o que já vi (e é por isso que sei que nem todos irão gostar). Eu que, além de amar coisas estranhas, adoro um programa de culinária, me senti especificamente contemplada com a novidade.

Na série, Christine McConnell é uma dona de casa, solteira e sem filhos, que está o tempo inteiro mostrando seus dotes culinários para nós, espectadores. Eventualmente, alguém pergunta: “Com quem ela está falando?”. Afinal, estamos fora do set, não é mesmo?

Mas suas criações culinárias não são nem um pouco recatadas. Aliás, a confeitaria de McConnell é não apenas bizarra, mas também megalomaníaca, incrível. Como não sou do ramo, aprendo muito pouco assistindo Christine. Vejo seu esforço em pintar e decorar e dar um aspecto vívido a cada prato que não posso dizer que não é artístico o que ela faz. São bolos góticos, biscoitos assustadores, doces em formato de insetos e por aí vai.Para animar o enredo do que alguns chamam de talk show, outros de reality, a nossa dona de casa à avessas conta com a companhia de seus amigos – que são verdadeiros bonecos, daqueles usados nas mais clássicas ficções científicas. Rose é um guaxinim que foi ressuscitada por Christine. Ela é carente, atrapalhada, glutona, apaixonada e impaciente. Rankle é um gato múmia que foi liberto por McConnell. Ele é muito ácido, egocêntrico, divertido e detesta Rose. Tem ainda Edgard, um lobisomem que não pode ver sangue; e Bernard, um psicopata que acredito ser um serial killer, mas que é muito gentil e amigo íntimo de Christine.

Outros personagens surgem ao longo da trama para que possamos acompanhar plots menores, dando gás para as histórias. Você já deve ter notado que não é apenas uma programa de culinária, né? É por isso que a linguagem do programa me impressiona. Há momentos em que Christine de fato realiza um tutorial, seja de confeitaria ou de costura. Mas há também as histórias de fundo que incluem sequestros, tentativas de homicídio e de incêndio, bem como assassinatos.

McConnell tem um quê (um alfabeto inteiro, na verdade) de Mortícia Addams e Lily Monster. Uma dona de casa que possui seus princípios, ainda que sejam questionáveis para o resto da sociedade, e está sempre tentando manter a ordem do lar, como uma boa e estranha mommy. Concordo, então, com a crítica que Helen Rosner escreveu ao The New Yorker dizendo o que o show é um encontro entre Martha Stewart e Tim Burtom.

Os episódios são curtos, duram entre 20 e 30 minutos, e são leves e divertidos. Os seis episódios de A Bizarra Confeitaria de Christine McConnell estão disponíveis na Netflix.

A Bizarra Confeitaria de Christine McConnell