Crítica | Esta Sou Eu é Bom? Vale a Pena Assistir?

O cinema contemporâneo japonês tem o dom de tratar feridas sociais com uma delicadeza visual quase poética, e Esta Sou Eu (This Is I), nova aposta da Netflix dirigida por Yusaku Matsumoto, é o exemplo definitivo dessa maestria. Em um cenário onde a identidade de gênero e a busca pelo pertencimento ganham camadas cada vez mais complexas, o longa-metragem emerge não apenas como uma biografia, mas como um manifesto sobre a dignidade humana.

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A Premissa: Do Isolamento ao Centro do Palco

A trama acompanha a trajetória de Kenji, um jovem que carrega o peso de anos de bullying e um isolamento social asfixiante. A narrativa descreve sua metamorfose em Ai Haruna, uma vibrante artista de cabaré que encontra na arte a voz que lhe foi negada por tanto tempo. O ponto de virada ocorre quando um encontro casual com o médico Koji Wada transforma sua jornada individual em uma parceria pioneira. Juntos, eles decidem desafiar estruturas preconceituosas da sociedade, formando um vínculo inquebrantável.

Veredito inicial? Esta Sou Eu é uma obra obrigatória. É um filme que não se contenta em ser apenas um drama biográfico; ele é um convite à empatia e uma aula de como o audiovisual pode humanizar estatísticas e vivências marginalizadas.

Desenvolvimento de Enredo e Ritmo

O roteirista Masahiro Yamaura constrói uma narrativa que foge do ritmo frenético para abraçar a introspecção. O ritmo é cadenciado, permitindo que o espectador sinta o peso do tempo no isolamento de Kenji antes de nos deslumbrar com a libertação de Ai Haruna. O roteiro é estruturado de forma a mostrar que a transição não é apenas estética ou profissional, mas uma reconstrução da alma.

A transição das cenas de bullying para o brilho do cabaré é feita sem apelação sentimental barata. A direção de Yusaku Matsumoto utiliza o silêncio e as pausas dramáticas de forma estratégica, fazendo com que o espectador entenda as motivações da protagonista através de suas ações e escolhas, e não apenas por diálogos expositivos. É um filme que prende a atenção pela honestidade de sua construção narrativa.

Atuações e Personagens: A Força do Olhar

O elenco é, sem dúvida, o coração pulsante da obra. Haruki Mochizuki entrega uma performance transcendental como Kenji/Ai Haruna. A transição física e emocional exigida pelo papel é executada com uma sensibilidade rara, capturando desde a fragilidade do isolamento até a potência magnética da artista no palco.

A presença de Tae Kimura e Seiji Chihara adiciona camadas de autoridade e suporte que enriquecem o universo da protagonista. No entanto, é a dinâmica entre a personagem principal e o médico Koji Wada que realmente ancora o filme. A química entre eles não é romântica no sentido tradicional, mas sim uma conexão de almas que reconhecem a necessidade de mudança. Eles formam uma parceria que desafia o sistema médico e social japonês, tornando-se o pilar de sustentação um do outro contra o preconceito.

A Visão “Séries Por Elas”: Identidade e Agência Feminina

No portal Séries Por Elas, nossa missão é identificar onde as mulheres (cis e trans) deixam de ser acessórios para se tornarem donas de suas histórias. Em Esta Sou Eu, a agência de Ai Haruna é o motor de toda a trama.

  1. A Construção da Mulher: O filme aborda a feminilidade não como algo dado, mas como algo conquistado através da dor e da beleza. Ai Haruna não espera permissão para existir; ela cria seu espaço, primeiro no cabaré e depois na sociedade civil.
  2. Quebra de Estereótipos: A obra foge da armadilha de retratar a mulher trans apenas como vítima. Embora o bullying seja mostrado como um fato traumático, o foco está na sua inteligência e na sua capacidade de formar parcerias estratégicas para mudar o mundo ao seu redor.
  3. Profundidade Narrativa: As personagens femininas que cruzam o caminho de Ai também possuem densidade, refletindo as diferentes formas como o patriarcado e as tradições rígidas do Japão tentam moldar o comportamento das mulheres.

A obra aborda temas cruciais para a sociedade atual: o direito à identidade, a ética médica e a importância de redes de apoio sólidas para minorias.

Aspectos Técnicos (Direção e Arte)

A fotografia do filme é um espetáculo à parte. Yusaku Matsumoto utiliza uma paleta de cores frias para os momentos de solidão de Kenji, evoluindo para tons vibrantes e quentes conforme Ai Haruna assume o palco. O contraste visual serve como uma metáfora perfeita para a sua floração interna.

O figurino do cabaré é luxuoso e cheio de significado, contrastando com a sobriedade dos ambientes clínicos e burocráticos onde a luta política acontece. A trilha sonora pontua os momentos de tensão com uma sutileza que nunca sobrepõe a atuação, mas a eleva.

Veredito e Nota Final

NOTA: 5/5

Esta Sou Eu é um triunfo cinematográfico que equilibra o drama íntimo com a crítica social. É um filme que nos lembra que a aceitação começa por nós mesmos, mas que a justiça só é alcançada quando encontramos aliados dispostos a lutar ao nosso lado. Com atuações memoráveis e uma direção segura, é uma das melhores adições ao streaming em 2026.

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Magui Schneider
Magui Schneider

Como Editora-Chefe do Séries Por Elas, Magdalena (Magui) é responsável pela curadoria e tom editorial do portal. Magui traz um diferencial único: sua formação como Psicóloga (CRP-RS 07/27539). Ela utiliza sua expertise no comportamento humano para enriquecer as críticas de cinema e TV, oferecendo uma visão analítica e humana sobre o desenvolvimento de personagens e tramas.

Especialista em narrativas de drama, romance e comédia, a ‘Little Monster’ fã declarada da Lady Gaga, traduz sua visão profissional em análises que conectam o público às emoções das telas. É ela quem garante que, aqui, a paixão de fã e a análise séria andem de mãos dadas.

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